17
Mar 08
A estratégia de passar a chegar 10 minutos mais cedo resultou na perfeição. Hoje, em vez de um cumprimento fortuito entre a sua chegada e a saída dela, podia permanecer ali de pé, ao balcão, a escassos centímetros. Um café forte, que eu hoje tenho muito que fazer - disse. Tinha ensaiado mais um par de frases antes de entrar mas a proximidade não o deixou desenvolver e a parte da chávena escaldada, que o café quer-se quente, teve de ficar para a próxima. Reparou então que ela ainda não tinha pedido e que lhe tinha passado à frente.
Foi bom porque até me dava um ar atarefado, de quem não podia esperar - um business man, como eu costumo dizer
E reparou ainda na hesitação dela sobre o que pedir.
A minha presença, era a minha presença
No one no one no one
Can get in the way of what I'm feeling
No onEstou?
Daqui a 10 minutos, estou a acabar o café.
Estou a ir para aí.
E desligou. Isto não tinha planeado mas resultou, também, na perfeição. Ela olhou timidamente na sua direcção.
Ficou impressionada. Via-me ali mas não sabia que eu era um homem de responsabilidades.
Esperava agora que ela acabasse para saírem ao mesmo tempo. E seria só o início.
Àquela hora estava sempre sozinha no café mas logo hoje, que se tinha enchido de coragem
Tinha de lhe dizer naquele dia
entrou aquele homem com que esbarrava à saída ia para mais de uma semana. Ele disse qualquer coisa que incluía a palavra café
naquele tom irritante com que me dizia bom dia, como está, sem me conhecer de parte nenhuma
e corou desmesuradamente. Com os planos cortados acabou por pedir o pequeno-almoço, da maneira que sempre fazia – com delonga.
Já que nada mais lhe conseguia dizer, demorava-me na conversa com as indecisões sobre a minha refeição matinal.
O homem do lado atendeu o telemóvel e os escassos segundos em que esteve de novo a sós com o empregado do café foram suficientes para ela articular um hesitante podíamos ir ao cinema, um destes dias. Mas antes da resposta, o homem desligou e ela lançou-lhe um olhar nervoso, numa tentativa de demarcação de território. Comia agora muito devagar, na esperança de ter motivos para ali ficar até estarem de novo a sós. Quando o homem saísse, ouviria a resposta. E seria só o início.
publicado por ag às 21:51
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